Transtorno afetivo bipolar
Informações sobre Transtorno afetivo bipolar (CID-10: F31). Sintomas, causas, tratamentos e orientações médicas.
Sobre F31 - Transtorno afetivo bipolar
O que é Transtorno Afetivo Bipolar (CID F31)?
O transtorno afetivo bipolar (TAB), classificado como CID F31, é um transtorno mental crônico caracterizado por oscilações extremas do humor, alternando entre episódios de mania (ou hipomania) — com humor exageradamente elevado, energia intensa e impulsividade — e episódios de depressão — com tristeza profunda, desânimo e perda de interesse. Entre os episódios, a pessoa pode apresentar períodos de humor normal (eutimia).
É fundamental entender que o transtorno bipolar é diferente de mudanças normais de humor. Todos temos dias bons e ruins, mas no transtorno bipolar, as oscilações são intensas, duram dias a semanas e causam prejuízo significativo na vida da pessoa.
O transtorno bipolar afeta cerca de 2-3% da população mundial. No Brasil, estima-se que 4 a 6 milhões de pessoas vivam com a condição, embora muitas não tenham diagnóstico. O TAB é frequentemente confundido com depressão unipolar, com um atraso médio de 8 a 10 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico correto.
Subtipos do CID F31
- F31.0 — Episódio atual maníaco sem sintomas psicóticos
- F31.1 — Episódio atual maníaco com sintomas psicóticos
- F31.2 — Episódio atual maníaco com psicose
- F31.3 — Episódio atual depressivo leve ou moderado
- F31.4 — Episódio atual depressivo grave sem psicose
- F31.5 — Episódio atual depressivo grave com psicose
- F31.6 — Episódio atual misto
- F31.7 — Em remissão
Tipos de transtorno bipolar
- Bipolar tipo I: pelo menos um episódio maníaco completo (pode ou não ter episódios depressivos). A mania é intensa e pode incluir psicose
- Bipolar tipo II: episódios de hipomania (mania mais leve, sem psicose) alternados com episódios depressivos. A depressão tende a predominar
- Ciclotimia: forma mais leve, com oscilações crônicas entre hipomania leve e depressão leve, por pelo menos 2 anos
Sintomas do episódio maníaco
- Humor exageradamente elevado, eufórico ou irritável
- Energia e atividade muito aumentadas, com redução da necessidade de sono (sente-se descansado com 2-3 horas)
- Fala acelerada, pensamentos rápidos, ideias grandiosas
- Impulsividade — gastos excessivos, decisões financeiras arriscadas, comportamento sexual de risco
- Sensação de poder e invulnerabilidade
- Distração e dificuldade de concentração
- Em casos graves: delírios de grandeza, alucinações
Sintomas do episódio depressivo
- Tristeza profunda e persistente
- Fadiga extrema e falta de energia
- Perda de interesse em atividades que antes davam prazer
- Insônia ou hipersonia (dormir excessivamente)
- Alterações de apetite e peso
- Dificuldade de concentração e tomada de decisão
- Sentimentos de culpa e inutilidade
- Pensamentos de morte ou suicídio
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Causas
Causas do Transtorno Afetivo Bipolar (CID F31)
O transtorno bipolar tem forte base biológica, com contribuição genética significativa, alterações na química cerebral e influência de fatores ambientais.
Fatores genéticos
- Hereditariedade: o transtorno bipolar é uma das doenças psiquiátricas com maior componente genético. O risco na população geral é de 2-3%, mas sobe para 10-15% quando um dos pais tem a doença e para 40-70% entre gêmeos idênticos
- Poligênico: múltiplos genes contribuem, com sobreposição significativa com genes associados à esquizofrenia e à depressão
- Genes candidatos: variantes nos genes CACNA1C (canal de cálcio), ANK3, CLOCK (relógio biológico) e transportadores de serotonina são os mais estudados
Alterações neurobiológicas
- Desequilíbrio de neurotransmissores: na mania, há excesso de dopamina e noradrenalina; na depressão, déficit de serotonina e noradrenalina
- Desregulação dos ritmos circadianos: o relógio biológico das pessoas com bipolar tende a ser instável, contribuindo para as oscilações de humor
- Alterações estruturais cerebrais: redução de volume no córtex pré-frontal (planejamento, controle de impulsos) e aumento da amígdala (processamento emocional)
- Neuroinflamação: marcadores inflamatórios elevados durante episódios maníacos e depressivos
Fatores ambientais (gatilhos de episódios)
- Eventos estressantes: perdas, conflitos, mudanças importantes — podem desencadear episódios em pessoas vulneráveis
- Privação de sono: um dos gatilhos mais potentes de episódios maníacos
- Uso de substâncias: álcool, cocaína, anfetaminas e cannabis podem precipitar ou agravar episódios
- Antidepressivos sem estabilizador: o uso de antidepressivos sem estabilizador de humor pode desencadear virada maníaca
- Mudanças sazonais: alguns pacientes apresentam padrão sazonal (mania na primavera/verão, depressão no outono/inverno)
Tratamentos
Tratamento do Transtorno Afetivo Bipolar (CID F31)
O tratamento do transtorno bipolar é contínuo e de longa duração, combinando medicamentos estabilizadores de humor com psicoterapia e mudanças no estilo de vida. O objetivo é estabilizar o humor, prevenir novos episódios e manter a funcionalidade.
Medicamentos estabilizadores de humor (base do tratamento)
Lítio:
- O carbonato de lítio é o medicamento de referência ("padrão ouro") para o transtorno bipolar
- Eficaz tanto para mania quanto para depressão bipolar e prevenção de recaídas
- Único medicamento com efeito anti-suicida comprovado no transtorno bipolar
- Requer monitoramento regular dos níveis sanguíneos (litemia), função tireoidiana e renal
- Disponível gratuitamente pelo SUS
Anticonvulsivantes estabilizadores:
- Ácido valproico/valproato (Depakene): eficaz para mania, menos para depressão bipolar
- Lamotrigina (Lamictal): eficaz principalmente para prevenção de episódios depressivos
- Carbamazepina: alternativa quando lítio e valproato não são tolerados
Antipsicóticos atípicos:
- Quetiapina: eficaz para mania e depressão bipolar, amplamente utilizada
- Olanzapina, aripiprazol, risperidona: eficazes para episódios maníacos
- Lurasidona: aprovada para depressão bipolar
Tratamento dos episódios
- Episódio maníaco agudo: lítio ou valproato + antipsicótico atípico. Hospitalização pode ser necessária em casos graves
- Episódio depressivo: quetiapina, lurasidona ou lamotrigina. Antidepressivos convencionais devem ser usados com cautela (risco de virada maníaca) e SEMPRE com estabilizador de humor
- Episódio misto: tratamento semelhante à mania. Evitar antidepressivos
Psicoterapia (essencial)
- Psicoeducação: conhecer a doença, identificar gatilhos e sinais precoces de episódio é fundamental
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC): desenvolve estratégias de enfrentamento
- Terapia interpessoal e de ritmo social: foca na regularização de rotinas (sono, alimentação, atividades) — essencial no bipolar
- Terapia familiar: envolve a família no tratamento e reduz recaídas
Hábitos fundamentais
- Sono regular: dormir e acordar nos mesmos horários todos os dias é crucial
- Evitar substâncias: álcool, drogas e excesso de cafeína
- Exercício regular: atividade física moderada ajuda a estabilizar o humor
- Rotina estruturada: manter horários regulares para refeições e atividades
Prevenção
Como prevenir episódios do Transtorno Afetivo Bipolar (CID F31)
Como o transtorno bipolar tem forte base genética, a prevenção da doença em si não é possível. No entanto, é possível prevenir novos episódios (mania e depressão) com estratégias que fazem enorme diferença na qualidade de vida.
Prevenção de novos episódios
- Adesão ao tratamento medicamentoso: esta é a medida mais importante. A interrupção dos estabilizadores de humor é a principal causa de recaída. Mesmo quando se sente bem, o medicamento deve ser mantido
- Higiene do sono rigorosa: manter horários fixos de dormir e acordar, inclusive nos fins de semana. A privação de sono é o gatilho mais potente para mania
- Monitoramento do humor: usar um diário de humor ou aplicativo para registrar oscilações diárias ajuda a identificar sinais precoces de episódio
- Evitar álcool e drogas: substâncias psicoativas desestabilizam o humor e reduzem a eficácia dos medicamentos
- Plano de crise: combinar com família e equipe de tratamento o que fazer quando surgirem sinais de episódio (quem ligar, para onde ir, quais medicamentos ajustar)
- Gerenciar estresse: técnicas de relaxamento, mindfulness, limitar compromissos em excesso
- Atividade física regular: exercícios aeróbicos moderados 3-5 vezes por semana
Sinais precoces de episódio (aprender a reconhecer)
- Mania iminente: redução da necessidade de sono, fala mais rápida, inquietação, gastos aumentados, irritabilidade
- Depressão iminente: aumento do sono, isolamento, perda de interesse, fadiga crescente, pessimismo
Ao identificar esses sinais, entre em contato com o psiquiatra imediatamente para ajuste medicamentoso precoce — isso pode evitar um episódio completo.
Complicações
Complicações do Transtorno Afetivo Bipolar (CID F31)
O transtorno bipolar, especialmente quando não diagnosticado ou mal tratado, pode levar a complicações graves em diversas áreas da vida.
Complicações psiquiátricas
- Risco de suicídio: o transtorno bipolar tem uma das maiores taxas de suicídio entre os transtornos psiquiátricos — 15 a 20% dos pacientes não tratados tentam suicídio, e a taxa de mortalidade é de 6 a 7%. O risco é maior durante episódios depressivos e mistos
- Comorbidades: 60-70% dos pacientes bipolares têm pelo menos um transtorno comórbido — ansiedade (75%), abuso de substâncias (40-60%), TDAH (30%)
- Psicose: episódios maníacos graves podem incluir delírios e alucinações, necessitando internação
Complicações sociais e funcionais
- Danos financeiros: gastos impulsivos durante episódios maníacos podem causar endividamento catastrófico, perda de patrimônio e falência
- Problemas nos relacionamentos: a impulsividade maníaca, o comportamento sexual de risco e o isolamento depressivo causam grande desgaste nos relacionamentos
- Prejuízo profissional: dificuldade de manter emprego, absenteísmo, conflitos interpessoais
- Problemas legais: comportamento impulsivo e agressivo durante mania pode levar a situações legais complicadas
Complicações clínicas
- Síndrome metabólica: ganho de peso, diabetes, dislipidemia — em parte pelos medicamentos, em parte pelo estilo de vida
- Doenças cardiovasculares: risco aumentado de infarto e AVC
- Redução da expectativa de vida: pessoas com bipolar vivem em média 10-15 anos menos que a população geral
Consequências do não tratamento
- Progressão da doença: sem tratamento, os episódios tendem a se tornar mais frequentes, mais graves e mais difíceis de tratar (fenômeno de kindling)
- Deterioração cognitiva: episódios repetidos causam dano cumulativo à cognição
Consulte Sempre um Médico
As informações desta página têm caráter exclusivamente informativo e não substituem uma consulta médica. Não se autodiagnostique nem se automedique. Procure um profissional de saúde para diagnóstico e tratamento adequados.
Perguntas Frequentes sobre F31
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