Transtorno depressivo recorrente
Informações sobre Transtorno depressivo recorrente (CID-10: F33). Sintomas, causas, tratamentos e orientações médicas.
Sobre F33 - Transtorno depressivo recorrente
O que é Transtorno Depressivo Recorrente (CID F33)?
O transtorno depressivo recorrente, classificado como CID F33, é uma condição em que a pessoa apresenta dois ou mais episódios de depressão ao longo da vida, separados por períodos de pelo menos dois meses sem sintomas significativos. É diferente de um episódio depressivo único (CID F32) — o F33 indica um padrão de recorrência, o que tem implicações importantes para o tratamento e o prognóstico.
A depressão é um problema de saúde pública global. A OMS a considera a principal causa de incapacidade no mundo. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde estima que 10,2% dos adultos (cerca de 16 milhões de pessoas) tenham recebido diagnóstico de depressão. Desses, a maioria apresenta episódios recorrentes — após um primeiro episódio, o risco de ter outro é de 50-60%; após o segundo, sobe para 70-80%; e após o terceiro, chega a 90%.
Subtipos do CID F33
- F33.0 — Transtorno depressivo recorrente, episódio atual leve
- F33.1 — Episódio atual moderado
- F33.2 — Episódio atual grave sem sintomas psicóticos
- F33.3 — Episódio atual grave com sintomas psicóticos: presença de delírios ou alucinações
- F33.4 — Em remissão
Sintomas do episódio depressivo
Um episódio depressivo é caracterizado por sintomas que persistem por pelo menos 2 semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior:
- Humor deprimido: tristeza, vazio, desesperança na maior parte do dia, quase todos os dias
- Anedonia: perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram prazerosas
- Fadiga e falta de energia mesmo para tarefas simples
- Insônia ou hipersonia (dormir demais)
- Alteração de apetite (diminuído ou aumentado) com perda ou ganho de peso
- Dificuldade de concentração, indecisão, "mente lenta"
- Sentimentos excessivos de culpa, inutilidade ou autodepreciação
- Agitação ou lentificação psicomotora perceptível
- Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio
Diferença entre episódio e transtorno
Um episódio depressivo (F32) é um evento isolado. O transtorno depressivo recorrente (F33) indica que já houve pelo menos dois episódios — o que muda a abordagem do tratamento, pois a chance de recorrência é alta e geralmente justifica tratamento preventivo de longo prazo.
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Causas
Causas do Transtorno Depressivo Recorrente (CID F33)
A depressão recorrente resulta de uma interação complexa entre vulnerabilidade biológica e fatores ambientais. O modelo biopsicossocial é o mais aceito para explicar tanto o surgimento quanto a recorrência dos episódios.
Fatores biológicos
- Genética: a hereditariedade responde por aproximadamente 40% do risco de depressão recorrente. Parentes de primeiro grau de pessoas com depressão têm risco 2 a 3 vezes maior
- Neurotransmissores: desequilíbrio nos sistemas de serotonina, noradrenalina e dopamina. A teoria monoaminérgica, embora simplificada, é a base dos tratamentos atuais
- Eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenal): hiperatividade do sistema de estresse com produção excessiva de cortisol
- Neuroinflamação: marcadores inflamatórios (citocinas) estão elevados em pessoas com depressão recorrente
- Neuroplasticidade reduzida: diminuição do BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), especialmente no hipocampo
- Alterações estruturais: redução de volume no hipocampo e no córtex pré-frontal em pacientes com múltiplos episódios
Fatores psicológicos
- Padrões cognitivos negativos: pensamento catastrófico, generalização negativa, personalização (tudo é culpa minha) — descritos por Aaron Beck como a "tríade cognitiva" da depressão
- Ruminação: tendência a ficar preso em pensamentos negativos repetitivos
- Baixa autoestima e autoeficácia
- Perfeccionismo e autocrítica excessiva
- Traumas na infância: abuso, negligência e perda parental precoce são fatores de risco consistentes para depressão recorrente
Fatores ambientais e sociais
- Eventos estressantes: perdas, conflitos, problemas financeiros, desemprego
- Isolamento social: a falta de suporte social é tanto fator de risco quanto consequência da depressão
- Doenças crônicas: diabetes, doenças cardiovasculares, dor crônica — a depressão frequentemente coexiste com condições médicas
- Sensibilização (kindling): após cada episódio, o cérebro se torna mais vulnerável — episódios posteriores podem ser desencadeados por estressores menores ou surgir espontaneamente
Tratamentos
Tratamento do Transtorno Depressivo Recorrente (CID F33)
O tratamento da depressão recorrente tem dois objetivos: tratar o episódio atual (fase aguda) e prevenir novos episódios (fase de manutenção). A combinação de medicamentos antidepressivos com psicoterapia é a abordagem mais eficaz.
Tratamento medicamentoso
Antidepressivos ISRS (primeira linha):
- Fluoxetina, sertralina, escitalopram, paroxetina, citalopram
- Bem tolerados, com menos efeitos colaterais que as classes mais antigas
- Início do efeito terapêutico em 2 a 4 semanas
- Fluoxetina e sertralina disponíveis gratuitamente no SUS
Antidepressivos IRSN (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina):
- Venlafaxina, duloxetina, desvenlafaxina
- Opção quando ISRS não funcionam ou quando há dor crônica associada
Outros antidepressivos:
- Bupropiona: útil quando há fadiga, sonolência e ganho de peso como problemas principais
- Mirtazapina: útil quando há insônia e perda de apetite
- Tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina): eficazes, mas com mais efeitos colaterais
Duração do tratamento medicamentoso
- Após o primeiro episódio: mínimo de 6 a 12 meses após a remissão
- Após o segundo episódio: pelo menos 2 anos
- Após três ou mais episódios: tratamento de manutenção indefinido (possivelmente para a vida toda)
- Importante: NUNCA interrompa o antidepressivo por conta própria — a retirada deve ser gradual e sob orientação médica
Psicoterapia
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC): a mais estudada e eficaz para depressão. Identifica e modifica padrões de pensamento negativos. Tem efeito preventivo comprovado contra recorrências
- Terapia interpessoal (TIP): foca nos relacionamentos e no papel social
- Mindfulness (MBCT): terapia cognitiva baseada em mindfulness — especialmente eficaz na prevenção de recorrências em pessoas com 3 ou mais episódios
- Ativação comportamental: foco no aumento gradual de atividades prazerosas e significativas
Tratamentos para depressão resistente
- Potencialização: adição de lítio, hormônio tireoidiano ou antipsicótico atípico ao antidepressivo
- Combinação de antidepressivos: uso de dois antidepressivos com mecanismos diferentes
- Estimulação magnética transcraniana (EMT): técnica não invasiva disponível em alguns centros
- Eletroconvulsoterapia (ECT): tratamento altamente eficaz para depressão grave resistente, especialmente com risco de suicídio
Prevenção
Como prevenir novos episódios do Transtorno Depressivo Recorrente (CID F33)
A prevenção de novos episódios depressivos é fundamental, pois cada recorrência aumenta o risco de futuros episódios e causa impacto cumulativo na vida da pessoa.
Estratégias com forte evidência
- Manutenção do antidepressivo: após múltiplos episódios, a manutenção do antidepressivo por tempo prolongado reduz o risco de recorrência em 60-70%. Não interrompa por conta própria
- Psicoterapia preventiva: a TCC e a MBCT (mindfulness) reduzem significativamente as recorrências, mesmo após a suspensão do medicamento
- Exercício físico regular: atividade aeróbica moderada (30-45 minutos, 3-5 vezes/semana) tem efeito antidepressivo comparável a medicamentos em depressão leve a moderada e reduz recorrências
- Sono adequado: manter rotina de sono regular (7-8 horas). A insônia é fator de risco e sintoma precoce de recorrência
Estratégias complementares
- Conexão social: manter vínculos afetivos e participar de grupos comunitários. O isolamento alimenta a depressão
- Alimentação saudável: a dieta mediterrânea mostrou efeito protetor contra depressão em estudos clínicos
- Reduzir álcool: o álcool é depressor do sistema nervoso central e piora o quadro depressivo
- Gerenciamento do estresse: técnicas de mindfulness, relaxamento e respiração
- Monitorar o humor: usar diário de humor para identificar sinais precoces de recaída
- Exposição à luz solar: especialmente importante para quem tem padrão sazonal
Sinais precoces de recaída
Aprender a reconhecer os primeiros sinais é fundamental para intervir cedo:
- Alteração do sono (insônia ou hipersonia)
- Perda de interesse progressiva
- Isolamento social crescente
- Irritabilidade ou choro fácil
- Dificuldade de concentração
Ao perceber esses sinais, consulte o psiquiatra sem esperar — o ajuste precoce do tratamento pode evitar um episódio completo.
Complicações
Complicações do Transtorno Depressivo Recorrente (CID F33)
A depressão recorrente não tratada tem impacto devastador na qualidade de vida e está associada a complicações em múltiplas áreas.
Complicações psiquiátricas
- Risco de suicídio: a depressão é o principal fator de risco para suicídio. Estima-se que 60-70% das pessoas que morrem por suicídio tinham depressão. O risco aumenta com a recorrência, especialmente em episódios graves com desesperança intensa. Se você ou alguém que conhece está em risco, ligue para o CVV: 188
- Cronificação: episódios não tratados tendem a durar mais e cada recorrência aumenta o risco de cronificação
- Comorbidades: transtornos de ansiedade (60-70%), uso problemático de álcool (30%), transtornos alimentares
Complicações físicas
- Doenças cardiovasculares: a depressão aumenta o risco de doença coronariana e infarto em 60% e piora o prognóstico de quem já tem doença cardíaca
- Diabetes tipo 2: risco aumentado em 60% — e a depressão dificulta o controle glicêmico em quem já é diabético
- Dor crônica: a depressão amplifica a percepção de dor e está frequentemente associada a dor nas costas, fibromialgia e enxaqueca
- Comprometimento imunológico: a depressão reduz a função imunológica, aumentando a suscetibilidade a infecções
Complicações funcionais e sociais
- Prejuízo profissional: a depressão é a principal causa de absenteísmo e presenteísmo (estar no trabalho mas com produtividade reduzida). Segundo a OMS, custa à economia global US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade
- Comprometimento cognitivo: dificuldades de memória, concentração e tomada de decisão que podem persistir entre episódios
- Impacto familiar: filhos de pais com depressão não tratada têm risco aumentado de desenvolver transtornos emocionais
Consulte Sempre um Médico
As informações desta página têm caráter exclusivamente informativo e não substituem uma consulta médica. Não se autodiagnostique nem se automedique. Procure um profissional de saúde para diagnóstico e tratamento adequados.
Perguntas Frequentes sobre F33
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