Enxaqueca
Informações sobre Enxaqueca (CID-10: G43). Sintomas, causas, tratamentos e orientações médicas.
Sobre G43 - Enxaqueca
O que é Enxaqueca (CID G43)?
A enxaqueca (migrânea), classificada como CID G43, é um transtorno neurológico crônico caracterizado por episódios recorrentes de dor de cabeça intensa, geralmente unilateral (um lado da cabeça), de caráter pulsátil (latejante), com duração de 4 a 72 horas, acompanhada de sintomas como náusea, vômito e sensibilidade aumentada à luz (fotofobia) e ao som (fonofobia).
É importante diferenciar: enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça forte. É uma doença neurológica com mecanismos próprios, diferente da cefaleia tensional (dor de cabeça "comum", bilateral, tipo pressão/aperto, sem náusea ou vômito significativos).
A enxaqueca afeta cerca de 15% da população mundial — mais de 1 bilhão de pessoas. No Brasil, estudos estimam que 15 a 18% dos adultos sofrem de enxaqueca, sendo 3 vezes mais comum em mulheres do que em homens. É a segunda causa de incapacidade no mundo segundo a OMS, perdendo apenas para a lombalgia.
Subtipos do CID G43
- G43.0 — Enxaqueca sem aura (migrânea comum): o tipo mais frequente (70-80% dos casos)
- G43.1 — Enxaqueca com aura (migrânea clássica): precedida por sintomas neurológicos transitórios (aura)
- G43.2 — Estado de mal enxaquecoso: crise de enxaqueca que dura mais de 72 horas
- G43.3 — Enxaqueca complicada
Fases da crise de enxaqueca
Uma crise completa pode ter até quatro fases:
- 1. Fase prodrômica (horas a dias antes): irritabilidade, fadiga, bocejos excessivos, desejo por doces, rigidez no pescoço, alteração do humor
- 2. Aura (5 a 60 minutos antes da dor — apenas em 25-30% dos pacientes):
- Aura visual (mais comum): pontos luminosos, ziguezagues, escotomas (manchas cegas), visão embaçada
- Aura sensitiva: formigamento em mão, braço ou face
- Aura de linguagem: dificuldade para falar ou encontrar palavras
- 3. Fase de dor (4 a 72 horas):
- Dor de cabeça intensa, geralmente unilateral, pulsátil/latejante
- Náusea e/ou vômito
- Fotofobia (intolerância à luz) e fonofobia (intolerância ao barulho)
- Piora com atividade física (subir escada, caminhar)
- 4. Fase pós-drome (até 48 horas após): fadiga, dificuldade de concentração, sensação de "ressaca"
Enxaqueca crônica
Quando as crises ocorrem em 15 ou mais dias por mês, por pelo menos 3 meses, com características de enxaqueca em pelo menos 8 desses dias, é classificada como enxaqueca crônica — forma mais incapacitante que afeta 2-3% da população.
Sintomas Relacionados
Você ou alguém próximo tem Enxaqueca?
Esquecer um medicamento pode piorar esta condição
Pacientes que não seguem o tratamento corretamente têm até 3x mais chances de complicações.
MediLife envia lembretes automáticos para que nenhuma dose seja esquecida.
Causas
Causas da Enxaqueca (CID G43)
A enxaqueca é uma doença neurológica com forte base genética, na qual o cérebro apresenta uma hiperexcitabilidade — uma sensibilidade aumentada a estímulos internos e externos que desencadeiam a cascata de eventos da crise.
Base genética
- Hereditariedade: ter um dos pais com enxaqueca eleva o risco em 50%; se ambos os pais têm, o risco chega a 75%. Mais de 40 variantes genéticas já foram associadas à enxaqueca
- Enxaqueca hemiplégica familiar: forma rara causada por mutações em genes específicos (CACNA1A, ATP1A2, SCN1A) — as mesmas famílias de genes envolvidas em algumas epilepsias
Mecanismo da crise
- Depressão cortical alastrante: onda de atividade neuronal seguida de inibição que se propaga pelo córtex cerebral — responsável pela aura
- Ativação do sistema trigeminovascular: o nervo trigêmeo libera neuropeptídeos inflamatórios (CGRP, substância P) nos vasos meníngeos, causando inflamação neurogênica e vasodilatação — gerando a dor
- CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina): principal mediador da dor na enxaqueca. Os novos tratamentos (gepants e anticorpos anti-CGRP) atuam bloqueando esse peptídeo
- Sensibilização central: com crises repetidas, o sistema nervoso se torna mais sensível, contribuindo para a cronificação
Gatilhos (desencadeantes de crises)
Os gatilhos variam de pessoa para pessoa e podem agir isoladamente ou em combinação:
- Hormonais (principal gatilho em mulheres): queda do estrogênio antes da menstruação (enxaqueca menstrual), pílulas anticoncepcionais, menopausa
- Estresse: tanto o estresse em si quanto o "alívio do estresse" (enxaqueca do fim de semana)
- Sono: dormir demais ou de menos, jet lag, mudanças no horário de sono
- Alimentares: jejum prolongado (principal fator alimentar), álcool (especialmente vinho tinto), cafeína em excesso ou abstinência, queijos envelhecidos, chocolate (controverso — pode ser desejo prodrômico, não gatilho)
- Ambientais: luz forte, odores fortes, mudanças climáticas e barométricas, altitude
- Medicamentos: uso excessivo de analgésicos pode cronificar a enxaqueca (cefaleia por uso excessivo de medicamentos)
Tratamentos
Tratamento da Enxaqueca (CID G43)
O tratamento da enxaqueca tem dois pilares: tratamento agudo (abortar a crise quando ela ocorre) e tratamento preventivo (reduzir a frequência e a intensidade das crises).
Tratamento agudo (abortivo)
Para crises leves a moderadas:
- Analgésicos simples: paracetamol 1g ou dipirona 1g — eficazes no início da crise
- Anti-inflamatórios: ibuprofeno 400-600 mg, naproxeno 500-1000 mg, diclofenaco 50-100 mg
- Combinação com cafeína: analgésico + cafeína pode aumentar a eficácia em 40%
Para crises moderadas a graves:
- Triptanos: sumatriptano 50-100 mg (oral, nasal ou subcutâneo), rizatriptano, zolmitriptano, naratriptano — medicamentos específicos para enxaqueca que atuam nos receptores de serotonina
- Gepants (nova classe): rimegepant, ubrogepant — bloqueadores do receptor CGRP. Eficazes e sem risco de cefaleia por uso excessivo
- Ditans (nova classe): lasmiditan — agonista seletivo de serotonina 5-HT1F, sem efeito vasoconstrictor
Para crises com náusea/vômito:
- Antieméticos: metoclopramida, domperidona — aliviam a náusea e melhoram a absorção dos analgésicos
Regra de ouro: tratar a crise o mais cedo possível (nos primeiros 30-60 minutos). Quanto antes o tratamento, melhor a resposta.
Tratamento preventivo
Indicado quando: crises ocorrem 4 ou mais vezes/mês, são muito incapacitantes, duram muito ou não respondem bem ao tratamento agudo.
Medicamentos orais (primeira linha):
- Betabloqueadores: propranolol 40-240 mg/dia — um dos mais utilizados e acessíveis
- Antidepressivos: amitriptilina 10-75 mg/dia — útil quando há depressão ou insônia associada
- Anticonvulsivantes: topiramato 50-200 mg/dia, ácido valproico
- Candesartana 8-16 mg/dia — bloqueador do receptor de angiotensina
Anticorpos monoclonais anti-CGRP (revolução no tratamento):
- Erenumabe (Aimovig), fremanezumabe (Ajovy), galcanezumabe (Emgality)
- Injeções subcutâneas mensais ou trimestrais
- Específicos para enxaqueca, com excelente perfil de efeitos colaterais
- Reduzem a frequência de crises em 50% ou mais em 60-70% dos pacientes
Toxina botulínica (Botox):
- Aprovada para enxaqueca crônica (15+ dias/mês)
- Aplicação a cada 12 semanas em 31 pontos na cabeça e pescoço
- Disponível pelo SUS em alguns centros de referência
Cuidado com o uso excessivo de analgésicos
Usar analgésicos ou triptanos em mais de 10-15 dias por mês pode causar cefaleia por uso excessivo de medicamentos — um ciclo vicioso em que o remédio que deveria aliviar passa a causar dor de cabeça.
Prevenção
Como prevenir crises de Enxaqueca (CID G43)
A prevenção das crises de enxaqueca envolve a identificação e o manejo dos gatilhos individuais, mudanças no estilo de vida e, quando indicado, medicamentos preventivos.
Identificação dos gatilhos
- Diário de enxaqueca: anotar cada crise com possíveis gatilhos (alimentação, sono, estresse, menstruação, clima). Após 2-3 meses, padrões ficam evidentes
- Não elimine tudo: evitar todos os gatilhos ao mesmo tempo pode ser mais estressante do que útil. Identifique os seus gatilhos reais e foque neles
Hábitos protetores
- Regularidade do sono: dormir e acordar nos mesmos horários todos os dias (inclusive fins de semana). Nem de mais, nem de menos — 7-8 horas
- Alimentação regular: nunca pular refeições. O jejum prolongado é um dos gatilhos mais potentes. Fazer refeições a cada 3-4 horas
- Hidratação: beber pelo menos 2 litros de água por dia. A desidratação é gatilho comum
- Exercício regular: atividade aeróbica moderada 3-5 vezes por semana (30-45 minutos) reduz a frequência de crises. O exercício tem efeito preventivo comparável a medicamentos
- Gerenciamento do estresse: técnicas de relaxamento, mindfulness, yoga. O estresse é o gatilho mais frequentemente relatado
- Limitar cafeína: não ultrapassar 200 mg/dia (2 xícaras de café). Abstinência de cafeína no fim de semana pode causar enxaqueca
- Limitar álcool: especialmente vinho tinto e cerveja
Para mulheres
- Enxaqueca menstrual: triptanos ou anti-inflamatórios iniciados 2 dias antes do período e mantidos por 5-7 dias (perimenstrual) podem prevenir as crises
- Anticoncepcionais: mulheres com enxaqueca com aura devem evitar anticoncepcionais com estrogênio (risco aumentado de AVC). Optar por métodos só com progesterona ou não hormonais
Terapias complementares com evidência
- Magnésio: 400-600 mg/dia de citrato ou glicinato de magnésio — modesta mas comprovada ação preventiva
- Riboflavina (vitamina B2): 400 mg/dia — reduz a frequência de crises em alguns pacientes
- Coenzima Q10: 100-300 mg/dia — alguma evidência de benefício
- Acupuntura: evidência moderada de eficácia preventiva
Complicações
Complicações da Enxaqueca (CID G43)
Embora a enxaqueca não seja uma condição que ameace diretamente a vida na maioria dos casos, ela pode levar a complicações significativas, especialmente quando frequente ou mal tratada.
Complicações diretas da enxaqueca
- Enxaqueca crônica: quando as crises passam de episódicas (menos de 15 dias/mês) para crônicas (15+ dias/mês). Afeta 2-3% da população e causa incapacidade severa. A cronificação é favorecida pelo uso excessivo de analgésicos, obesidade, depressão e estresse
- Estado de mal enxaquecoso (status migrainosus): crise que dura mais de 72 horas contínuas, com dor intensa refratária aos tratamentos usuais. Pode necessitar atendimento de urgência com medicação intravenosa
- Infarto migranoso: complicação rara na qual a aura se prolonga e causa um AVC isquêmico. Mais frequente em mulheres jovens com enxaqueca com aura que usam anticoncepcionais com estrogênio e fumam
- Aura persistente sem infarto: sintomas de aura que duram mais de 1 semana sem evidência de isquemia
Risco cardiovascular
- Enxaqueca com aura e risco de AVC: mulheres com enxaqueca com aura têm risco 2-3 vezes maior de AVC isquêmico, especialmente se fumam e usam anticoncepcionais hormonais combinados
- Doença cardiovascular: estudos sugerem associação modesta entre enxaqueca com aura e maior risco de eventos cardiovasculares em geral
Complicações psiquiátricas
- Depressão: 3 vezes mais comum em quem tem enxaqueca. A relação é bidirecional — a depressão piora a enxaqueca e vice-versa
- Ansiedade: 2-5 vezes mais frequente em pessoas com enxaqueca
- Abuso de substâncias: especialmente automedicação com analgésicos
Impacto funcional
- Perda de produtividade: a enxaqueca é a segunda causa de incapacidade no mundo (OMS). Estima-se que no Brasil, trabalhadores com enxaqueca perdem em média 4-8 dias de trabalho por ano e apresentam produtividade reduzida em muitos outros
- Qualidade de vida: estudos mostram que a qualidade de vida de pessoas com enxaqueca crônica é comparável à de pessoas com diabetes ou insuficiência cardíaca
Cefaleia por uso excessivo de medicamentos
- Complicação muito comum (afeta 1-2% da população) onde o próprio tratamento se torna o problema
- Analgésicos usados em mais de 15 dias/mês ou triptanos em mais de 10 dias/mês por mais de 3 meses
- O tratamento exige a retirada (desmame) do medicamento causador, o que pode ser difícil
Consulte Sempre um Médico
As informações desta página têm caráter exclusivamente informativo e não substituem uma consulta médica. Não se autodiagnostique nem se automedique. Procure um profissional de saúde para diagnóstico e tratamento adequados.
Perguntas Frequentes sobre G43
Artigos Relacionados
Automedicação: Os 10 Riscos Mais Perigosos de Se Medicar por Conta Própria
Descubra os 10 riscos mais graves da automedicação, os medicamentos mais abusados no Brasil e como evitar complicações sérias ao tomar remédios sem orientação médica.
Ler artigoSintomas que Voce Nao Deve Ignorar: Quando Procurar um Medico
Saiba identificar os sinais de alerta do corpo que exigem atencao medica urgente: dor no peito, falta de ar, febre persistente, perda de peso inexplicada e outros sintomas que voce jamais deve ignorar.
Ler artigoDor de Cabeca Frequente: Causas, Tipos de Medicamentos e Quando Preocupar
Entenda os tipos de dor de cabeca (tensional, enxaqueca, salvas), os medicamentos mais usados, o perigo da cefaleia de rebote e quando procurar um neurologista.
Ler artigoMedicamentos e Amamentação: O Que É Seguro para Mãe e Bebê
Saiba quais medicamentos são compatíveis com a amamentação, a classificação de risco, quando suspender e as fontes confiáveis para consulta como o LactMed.
Ler artigoQual medico procurar para Enxaqueca?
Especialistas que diagnosticam e tratam esta condicao
CIDs Relacionados
Distúrbios do sono
Informações sobre Distúrbios do sono (CID-10: G47). Sintomas, causas, tratamentos e orientações médicas.
Epilepsia
Informações sobre Epilepsia (CID-10: G40). Sintomas, causas, tratamentos e orientações médicas.
CID G50 - Classificação em G50
Informações sobre CID G50 - Classificação em G50 (CID-10: G50). Sintomas, causas, tratamentos e orientações médicas.
CID G77 - Classificação em G77 - subcategoria 9
Informações sobre CID G77 - Classificação em G77 - subcategoria 9 (CID-10: G77.9).
CID G01 - Classificação em G01 - subcategoria 7
Informações sobre CID G01 - Classificação em G01 - subcategoria 7 (CID-10: G01.7).
CID G19 - Classificação em G19 - subcategoria 5
Informações sobre CID G19 - Classificação em G19 - subcategoria 5 (CID-10: G19.5).