Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool
Informações sobre Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool (CID-10: F10). Sintomas, causas, tratamentos e orientações médicas.
Sobre F10 - Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool
O que são Transtornos Mentais e Comportamentais Devidos ao Uso de Álcool (CID F10)?
Os transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool, classificados como CID F10, compreendem um espectro de condições causadas pelo consumo de bebidas alcoólicas, que vão desde o uso nocivo até a dependência severa (alcoolismo). Trata-se de uma doença crônica, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, e não uma falha de caráter ou falta de força de vontade.
No Brasil, o álcool é a substância psicoativa mais consumida. Segundo o Relatório Global sobre Álcool e Saúde da OMS, o consumo per capita no país é de 7,8 litros de álcool puro por ano. Dados do DATASUS indicam que transtornos relacionados ao álcool são responsáveis por mais de 70 mil internações/ano no SUS e contribuem para cerca de 12% de todas as mortes de homens entre 15 e 49 anos.
Subtipos do CID F10
- F10.0 — Intoxicação aguda: estado de embriaguez com alterações de comportamento, coordenação e consciência
- F10.1 — Uso nocivo: padrão de consumo que causa dano à saúde física ou mental, mas sem dependência estabelecida
- F10.2 — Síndrome de dependência: desejo intenso (fissura), dificuldade de controlar o consumo, tolerância e abstinência
- F10.3 — Síndrome de abstinência: sintomas físicos e psíquicos ao parar ou reduzir o consumo
- F10.4 — Síndrome de abstinência com delirium: forma grave com confusão mental, alucinações e agitação (delirium tremens)
- F10.5 — Transtorno psicótico: alucinações e delírios relacionados ao uso de álcool
- F10.6 — Síndrome amnéstica: comprometimento grave da memória (síndrome de Korsakoff)
- F10.7 — Transtorno residual de início tardio
Sinais de alerta
Alguns sinais indicam que o consumo de álcool pode estar se tornando problemático:
- Beber sozinho ou escondido com frequência
- Precisar de quantidades cada vez maiores para sentir o mesmo efeito (tolerância)
- Sentir irritabilidade, ansiedade ou tremores quando não bebe (abstinência)
- Não conseguir cumprir responsabilidades no trabalho, escola ou família por causa do álcool
- Continuar bebendo apesar de problemas de saúde, relacionamentos ou legais
- Ter "apagões" (blackouts) — não lembrar do que aconteceu enquanto bebia
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Causas
Causas dos Transtornos Devidos ao Uso de Álcool (CID F10)
O desenvolvimento de um transtorno relacionado ao álcool é resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Nenhum fator isolado determina se uma pessoa se tornará dependente.
Fatores biológicos/genéticos
- Hereditariedade: estudos com gêmeos e famílias demonstram que a genética responde por 40 a 60% do risco de desenvolver dependência alcoólica. Filhos de pessoas com alcoolismo têm risco 3 a 4 vezes maior
- Neurobiologia: o álcool atua no sistema de recompensa cerebral, aumentando a liberação de dopamina. Com o uso repetido, o cérebro adapta-se (neuroadaptação), necessitando de doses maiores para o mesmo efeito
- Enzimas hepáticas: variações genéticas nas enzimas que metabolizam o álcool (álcool desidrogenase e aldeído desidrogenase) influenciam a tolerância e o risco de dependência
Fatores psicológicos
- Transtornos mentais coexistentes: depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e transtornos de personalidade aumentam significativamente o risco de uso problemático de álcool
- Uso como automedicação: muitas pessoas recorrem ao álcool para aliviar sintomas de ansiedade, insônia, tristeza ou estresse, criando um ciclo de dependência
- Baixa autoestima e dificuldade de lidar com emoções
- Histórico de traumas na infância: abuso físico, sexual ou emocional e negligência são fatores de risco importantes
Fatores sociais e ambientais
- Disponibilidade e acessibilidade: o álcool é legal, barato e amplamente disponível no Brasil, com publicidade ainda presente em grandes eventos
- Cultura do consumo: a normalização do uso excessivo em festas, eventos esportivos e confraternizações
- Pressão social: ambientes onde o consumo é esperado e a abstinência é questionada
- Início precoce: começar a beber antes dos 15 anos multiplica por 4 o risco de dependência na vida adulta
- Condições socioeconômicas: desemprego, pobreza e falta de perspectivas podem favorecer o uso abusivo
Tratamentos
Tratamento dos Transtornos Devidos ao Uso de Álcool (CID F10)
O tratamento do alcoolismo é possível e eficaz, mas requer uma abordagem multidisciplinar e individualizada. Não existe um tratamento único que funcione para todos — o plano deve considerar a gravidade da dependência, a presença de comorbidades e o contexto social do paciente.
Desintoxicação (fase aguda)
A interrupção do consumo em pessoas com dependência pode causar síndrome de abstinência, que varia de leve (tremores, ansiedade, insônia) a grave (convulsões, delirium tremens). A desintoxicação deve ser feita sob supervisão médica:
- Benzodiazepínicos: diazepam ou clordiazepóxido são usados para prevenir convulsões e aliviar sintomas de abstinência
- Tiamina (vitamina B1): administrada para prevenir a encefalopatia de Wernicke e a síndrome de Korsakoff
- Hidratação e reposição de eletrólitos
- Monitoramento: nos primeiros 3 a 5 dias, há maior risco de complicações
Tratamento medicamentoso de manutenção
- Naltrexona: bloqueia os receptores opioides, reduzindo o prazer associado ao álcool e a compulsão por beber
- Dissulfiram (Antabuse): causa reações desagradáveis (náusea intensa, rubor, taquicardia) se a pessoa consumir álcool, funcionando como dissuasor
- Acamprosato: ajuda a restaurar o equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais alterados pela dependência, reduzindo a fissura
- Topiramato e gabapentina: alternativas com evidência crescente de eficácia
Abordagens psicossociais
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC): ajuda a identificar gatilhos para o consumo e desenvolver estratégias de enfrentamento
- Entrevista motivacional: técnica que fortalece a motivação interna para a mudança
- Terapia familiar: envolve a família no processo de recuperação
- Grupos de apoio: Alcoólicos Anônimos (AA) e outros grupos de mútua ajuda oferecem suporte contínuo e são acessíveis em todo o Brasil gratuitamente
Tratamento pelo SUS
O Sistema Único de Saúde oferece tratamento gratuito e integral:
- CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas): principal ponto de atendimento especializado, com equipe multidisciplinar
- UBS (Unidades Básicas de Saúde): porta de entrada, com acolhimento e encaminhamento
- Leitos de desintoxicação: disponíveis em hospitais gerais para casos graves
- Comunidades terapêuticas: opção para internação de longa permanência quando necessário
Prevenção
Como prevenir Transtornos Relacionados ao Álcool (CID F10)
A prevenção dos transtornos relacionados ao álcool envolve estratégias individuais, familiares e de saúde pública. O objetivo não é necessariamente a abstinência total para todos, mas o consumo consciente e de baixo risco.
Limites de consumo de baixo risco (OMS)
- Homens: até 2 doses padrão por dia, com pelo menos 2 dias sem beber por semana
- Mulheres: até 1 dose padrão por dia, com pelo menos 2 dias sem beber por semana
- Uma dose padrão = 350 ml de cerveja (5%) ou 150 ml de vinho (12%) ou 45 ml de destilado (40%)
- Abstinência total: recomendada para gestantes, adolescentes, pessoas com histórico de dependência e portadores de doenças hepáticas
Estratégias de prevenção
- Educação precoce: conversar abertamente com adolescentes sobre os riscos do álcool, sem alarmismo, mas com informações claras
- Retardar o primeiro uso: quanto mais tarde o primeiro contato com álcool, menor o risco de dependência futura
- Identificar fatores de risco: pessoas com histórico familiar de alcoolismo, transtornos mentais ou histórico de traumas devem receber orientação especial
- Buscar ajuda precoce: se perceber que o consumo está aumentando ou causando problemas, procurar um CAPS AD ou profissional de saúde mental
- Não usar álcool como estratégia de enfrentamento: buscar alternativas saudáveis para lidar com estresse, tristeza ou ansiedade (exercício físico, meditação, terapia)
Complicações
Complicações dos Transtornos Devidos ao Uso de Álcool (CID F10)
O uso crônico e excessivo de álcool afeta praticamente todos os órgãos e sistemas do corpo, além de causar impactos psicossociais devastadores.
Complicações hepáticas
- Esteatose hepática alcoólica (gordura no fígado): presente em até 90% dos consumidores excessivos. Reversível com abstinência
- Hepatite alcoólica: inflamação do fígado com icterícia, dor abdominal e febre. Pode ser fatal em casos graves
- Cirrose hepática: substituição do tecido hepático saudável por fibrose. É irreversível e pode levar à insuficiência hepática e necessidade de transplante
Complicações neurológicas
- Neuropatia periférica: formigamento, dormência e dor em mãos e pés
- Encefalopatia de Wernicke: confusão mental, alterações oculares e dificuldade para caminhar (por deficiência de vitamina B1)
- Síndrome de Korsakoff: perda grave e irreversível da memória recente
- Demência alcoólica: deterioração cognitiva global pelo dano cerebral crônico
- Convulsões: podem ocorrer durante a intoxicação ou na abstinência
Complicações cardiovasculares
- Cardiomiopatia alcoólica: enfraquecimento do músculo cardíaco
- Hipertensão arterial
- Arritmias cardíacas: especialmente fibrilação atrial (holiday heart syndrome)
Complicações psiquiátricas e sociais
- Depressão e ansiedade: muito frequentes na dependência alcoólica
- Risco de suicídio: significativamente aumentado
- Violência doméstica: o álcool está presente em grande parte dos casos
- Acidentes de trânsito: principal causa de morte entre jovens brasileiros, frequentemente associados ao álcool
- Problemas legais, financeiros e familiares: perda de emprego, divórcio, endividamento
No Brasil, estima-se que o álcool esteja relacionado a 10% de toda a carga de doenças e a mais de 40 mil mortes anuais por causas diretamente atribuíveis ao seu consumo.
Consulte Sempre um Médico
As informações desta página têm caráter exclusivamente informativo e não substituem uma consulta médica. Não se autodiagnostique nem se automedique. Procure um profissional de saúde para diagnóstico e tratamento adequados.
Perguntas Frequentes sobre F10
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